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O Bailado de Flávio de Carvalho

In the 'old' ones :: master pieces, therefore i am, thinking: i purchase on July 27, 2009 at 2:14 am

“…o extremo cuidado com cada palavra e gesto diante da presença do outro!

…mas já não mais o outro ‘de fora’, mas o Outro em mim!

Não existe o tocar que não seja, simultaneamente, ser tocado.

…conduz nosso olhar para aquele que foi um dos primeiros performers brasileiros

(embora, Flávio, preferisse o termo ‘experiência’)…”

txt retirado do “programa-da-peça”*

flavio de carvalho1

Flávio de Carvalho em Experiência nº 3, [Traje de Verão, Traje Tropical :: realizada publicamente em 1956]

“ele sai andando pelas ruas de São Paulo vestido com o traje de verão do “novo homem dos trópicos” (ou new look), desenhado por ele, e que consistia em uma roupa para ambos os sexos: uma blusa de náilon, um saiote com pregas e um chapéu transparente, vestidos com meia-arrastão e sandálias de couro.”

Flávio de Carvalho Traje de Verão, Traje Tropical 1956

Flávio de Carvalho Traje de Verão, Traje Tropical 1956

experiência —

“Explorando o campo semântico de experiência, vamos nos deparar com a acumulação de conhecimentos, o saber que advém das vivências, os atravessamentos que os acontecimentos impõem a todo aquele que se encontre em posição de enfrentar o desconhecido, e a superação de limites, inclusive de riscos. … respeitando sua etimologia pode ser:

uma travessia de risco.

* O Bailado de Flávio de Carvalho @ Centro Cultural FIESP

“… propõe uma reaproximação do universo turbulento, teatral e plástico desse artista insuficientemente visitado. Seus escritos e atitudes provocadores e radicais já prenunciavam nos anos 30 do século passado os dias atuais…

…O eixo condutor do espetáculo é a peça Bailado do Deus Morto, escrita e encenada por ele em 1933. Em torno desse eixo, estão as famosas experiências do artista, as pinturas e as suas instigantes reflexões acerca do homem moderno.”

flavio de carvalho3

demais links acessados [imagens] para este post:

http://luccasjc.flogbrasil.terra.com.br/foto16283763.html

http://www.artesdoispontos.com/viu.php?tb=viu&id=18

Elogio aos errantes. Breve histórico das errâncias urbanas (1) por Paola Berenstein Jacques | outubro 2004

“…O engenheiro civil, arquiteto, escultor e decorador Flávio de Carvalho, como ele se denominava, ficou mais conhecido por suas pinturas e obras arquitetônicas, do que por suas errâncias urbanas, que ele denominou de Experiências.

A Experiência nº 2 realizada em 1931 e publicada em livro homônimo (com o subtítulo, uma possível teoria e uma experiência), consistia na prática de uma deambulação, com um tipo de boné cobrindo a cabeça, no sentido contrário de uma procissão de Corpus Christi pelas ruas de São Paulo, como ele conta em seu livro: “Tomei logo a resolução de passar em revista o cortejo, conservando o meu chapéu na cabeça e andando em direção oposta à que ele seguia para melhor observar o efeito do meu ato ímpio na fisionomia dos crentes.” Depois de algum tempo a multidão se voltou contra ele, que teve que fugir e se refugiar em uma leiteria. Quando a polícia o prendeu ele disse que estava realizando uma “experiência sobre a psicologia das multidões”. Nos jornais do dia seguinte as manchetes destacavam: “Na procissão uma experiência sobre a psicologia das multidões da qual resultou sério distúrbio” (O Estado de São Paulo. São Paulo, 9 de junho de 1931). …”

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últimas linhas de maio [e de Mário]

In personal ... trainee, the 'old' ones :: master pieces on May 30, 2009 at 11:24 pm

“…a culpa das nossas culpas será minha,

se culpa existe.

Sempre no meio das minhas mais destrambelhadas fraquezas,

haverá sempre uma reserva.

Não vale a pena esmiuçar;

basta apenas você lembrar os nossos

15 anos de diferença de idade

e posição.

Mas nisto você ganha de mim

numa vitória talvez escandalosa….”

últimas linhas de maio [e de Mário]

In personal ... trainee, the 'old' ones :: master pieces on May 30, 2009 at 11:09 pm

cont. da carta de 25 de janeiro:

“… O que importa é a validade do assunto na sua forma própria.

“ Você, eia que se acha de posse de um assunto. A própria coisa a fazer é analisar friamente o seu assunto. Ele vale? Com ele você obtém qualquer coisa de humano, de útil? Você expõe uma realidade da vida? Você castiga ou exalta uma classe, uma virtude, uma necessidade social? Bem, se o seu assunto você acha que tem qualquer validade funcional, agora é ver o que ele rende como arte.

“… Você, por favor, nunca venha me argumentando com as palavras ‘espontaneidade’ e ‘sinceridade’, tenho verdadeiro horror delas. É a vaidade e também a desonestidade do artista que as inventou. É a eterna e repulsiva confusão entre o artista e a obra-de-arte que lhes dá uma aparência falsa de legitimidade. Pra obra-de-arte, a sinceridade, a espontaneidade do artista não tem significação nenhuma.

“… O simples fato do artista estar sinceramente entregue ao pensamento do seu assunto, a tomar notas de frases, de traços psicológicos, de formas, de idéias o vai predispondo psicologicamente para o ato de criação. E esta chega mesmo.

“Aqui entra de novo essa fatal sinceridade na argumentação: É certo que o artista não deve ter pressa, é preciso saber esperar. Mas isso do sujeito que só se põe escrevendo ‘quando sente disposição’ é estupidez mas da miúda. … Não tem disposição? Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro: se trata de ter horas de trabalho. Então vá escrevendo, vá trabalhando sem disposição mesmo. A coisa principia difícil, você hesita, escreve besteira, não faz mal. De resto vc percebe que, correntemente ou penosamente (isto depende da pessoa) vc está dizendo coisas acertadas, inventando belezas, forças etc. Depois, então, no trabalho de polimento, vc cortará o que não presta, descobrirá coisas pra encher os vazios etc etc

“Não há como a fatura de um filme pra exemplificar bem o trabalho de todo e qualquer artista. São cortes e mais cortes, novos close-up a fazer, tanto preparo anterior, tanto trabalho posterior, coisa lenta, difícil, penosa. …

…”

……..

há um tanto mais ainda na carta de 21-III-1942 que eu gostaria de aqui postar sobre esta “sinceridade” vs “espontaneidade” [e tanto mais restante nas demais…], mas não há tempo. meses de trabalho árduo, operário, necessário e sem descanso [ou desfoco]: vem-se o mês de junho, enfim. E não é que este ano de 2009 está a rápido [ultra]passar[nos]?!………………..

……..

não resisto mesmo:

mesmo Mário afirmando que não escreve um tratado, mas simplesmente seus pontos-de-vistas [e suas contradições enfim], nenhuma afirmativa que deva realmente ser levada ao pé-da-letra… Desconfie de tudo. Sempre. Mas leia, enfim:

“…Onde vamos parar com a sinceridade!… Mas, reconheço: tudo é porque não conceituam sinceridade nem espontaneidade. Sinceridade pra com quê? Espontaneidade imediata ou posterior? Você conhece coisa mais espontânea que uma fábula de La Fontaine? Pois tem algumas que foram refeitas dez vezes. Sinceridade com o que a gente é, ou com o que a gente tem convicção que deve ser? … A sinceridade, a espontaneidade são coisas que se modificam constantemente, dia por dia. Têm de ser repudiadas, como elementos conscientes da obra-de-arte que é artificial, artefazer, artefeitura. Sinceridade, espontaneidade … A sinceridade é, sem a gente querer. Como elementos conscientes da arte, sinceridade e espontaneidade só podem ser academismos, passadismos, preguiça, ignorância. Exclusivamente. Enfim: em arte não existe o problema da sinceridade.

…”

últimas linhas de maio [e de Mário]

In personal ... trainee, the 'old' ones :: master pieces on May 30, 2009 at 10:55 pm

é isto. postar aki mais uns trechos das cartas [para entregar o livro a quem o comprou, e livrarme enfim deste enfeitiçamento]. o fim desta leitura se foi há mais de uma semana já, mas há uma tamanha frescura em minha memória de frases inteiras [e conceitos]…….. enfim. e não podia fechar este mês sem estas linhas [e talvez outras mais q não terei mesmo tempo] ……. enfim.

17 de maio de 2009:
[quase todas as brincadeiras de choque das trocas ‘gramaticais’ das palavras como se por si, consciente por conciente, foram ‘corrigidas’ – talvez para horror do mestre –, mas explico-me de antemão, portanto: embora choquem em letras impressas, em uma visualidade virtual online elas não fazem mais qualquer sentido!, não são brincadeiras-de-choque como um Guimarães Rosa faria anos depois [?] sempre buscando imprimir sotaques e seus maneirismos próprios de linguagem. Quando há esta riqueza em Mário, como para por pra [ou de pra para para], as escritas são importantemente aqui respeitadas. Tornam-se necessárias e honradas porque induzem a um real coloquialismo das relações sociais em questão … Ou toda esta discussão é nula – e ingênua: sem valor – caso a ordem-regra gramatical à época fosse diferente dos dias atuais].

excertos da carta de 16-II-1942

“… Sendo a arte um produto direto da insatisfação humana, o artista, para se preservar em sua integridade, tem que renegar toda e qualquer facilidade que lhe aparecer na vida prática? … Só há uma resposta possível e imediata: Aceite o que a vida lhe oferece e experimente. … (repare que insisto em ‘facilidade’, evitando a palavra ‘felicidade’), se amor, se riqueza, deve ser uma destas duas.

A arte, para Mário de Andrade, não é filha da dor [como mtos imaginam e proferem], mas eh um penetrar-se constante de um processo de insatisfação. Mas em um desenvolvimento e compreensão crítica o artista chega a momentos fugazes de satisfação quando se dá conta da excelência de sua própria obra-de-arte que fora criada com tanto penar, “entusiasticamente, sem fadiga, seu dever, isto é, deu tudo o que tinha. … Não use então modéstia falsa … Como artista vc foi ‘moral dando tudo  que tinha. A sua obra se identifica com vc, pois que ela é tudo o que vc é. Você há-de necessariamente sentir a consciência tranquila e com isso uma espécie de satisfação, derivada deste equilíbrio relacional entre você e a sua obra. Mas desde o momento em que você tornar pública a sua obra e ela for viver independente de você, as insatisfações virão e os desgostos. As incompreensões serão fatais. [então ele volta ao relato – a falar sobre – Macunaíma, sobre “a falta de organização moral dele, (do brasileiro, que ele satiriza)” – grifo meu, e como lhe era um sofrer por seu herói.

“não existe um só artista que não artefaça com a intenção de ser amado”

e ele continua, ao falar dos críticos de seu livro: havia dois tipos que elogiavam, um por ufanismo e outros que “só retiraram do livro um reforço consciente de seu amoralismo… nacional” (grifo meu)

“Mas agora veja bem: não imagine não que eu vou bancar o incompreendido e sustentar o valor crítico do meu livro! Eu tenho bastante saúde mental pra reconhecer que a vida é uma luta, …”

Você confundiu, como fazem todos, felicidade com facilidade. … você não podia ter empregado a palavra felicidade pro seu caso atual. Será tudo o que você quiser, um deslumbramento, um delírio sublime que você está prestes a conquistar, se não já conquistou. Mas felicidade não é não. Se vc chegar a uma conceituação verdadeiramente filosófica do que seja Felicidade, vc perceberá que o sentido popular em que vc empregou a palavra é defeituoso e até imoral. Imoral porque desvia o indivíduo da sua integridade, da sua destinação coletiva e mesmo individual. Coisa muito mais alta que uma facilidade momentânea ou mesmo permanente.”

Mário de Andrade segue então a falar de felicidadeversusfacilidade [convívio] e como o ser humano nunca está satisfeito e sempre há-de querer mais “facilidade (felicidade)” e não há mal nisto (“é a marca divina do homem”, ele cita – a exemplo deste ‘divino no homem'[?] – Hitler, Stalin e Getúlio entre artistas, inventores e ladrões.

“O mal é que, embora buscando sempre aumentar insatisfeitamente a ‘felicidade’ conquistada … o mal é que vc, embora pretenda se aumentar, vc principia agindo sorrateiramente como se estivesse satisfeito: é o conformismo. Esta é a cilada que o homem encontra quotidianamente em seu caminho, o conformismo. Ela principia já por ser fisiológica: é a lei da estabilização, a lei que eu chamo de ‘preguiça’, nós vivemos morrendo. Quando o princípio moral verdadeiro [não gosto deste jogo de palavras moral-verdadeiro e artista-verdadeiro…… o que é /ou o que há de\ tão importante neste verdadeiro – falso – de/ em Mário?], é justo o contrário: nós devemos viver sempre nascendo: tudo deve ser objeto de aprimoramento pessoal e a busca da perfeição. Não hesito em afirmar: toda facilidade, toda felicidade é desmoralizante.

“… É vc não perder jamais de consciência que a sua experiência de felicidade deve ser também um objeto de aprimoramento pessoal. A felicidade, o prazer, a facilidade também é uma prova por que a gente passa … No seu caso particular de artista: o operário, cada vez que principia trabalhando, não reverifica os seus instrumentos de trabalho? não afia a foice, não azeita a máquina? Você também precisa estar sempre alerta, pra que seu trabalho seja legítimo. Você precisa reverificar constantemente os seus instrumentos de trabalho. É difícil, a facilidade tende a esquecer isso, a sequestrar a ideia da gente se repensar e se reverificar em seus trabalhos. Mas há um jeito muito humano da gente consertar essa tendência sorrateira: a fixação de uma data… comemorativa da sua grandeza de homem e de artista. Fixe uma data anual para o seu retiro espiritual, eu faço isso no fim do ano, que é mais fácil e inesquecível. O que fiz este ano que passou? no que isso me acrescenta em minha obra ou a prejudica? o que preciso fazer este ano próximo? no que devo me completar? Afinal das contas estou lhe dizendo coisas banais, que, aos banais, parece estar cheirando a confessionário. Não será tão banal assim… a vida tem de ser, muito mais que um viver-se, um continuado repensar-se. Mas a gente tem vergonha de se repensar. Fazer exame de conciência, isso é “desvio” (ah, a psicanálise!…) próprio de meninotes e das frágeis mulheres. “Eu sou um espírito forte!”, e são os mais inexistentes dos espíritos…

“Não é justo a gente se recusar uma facilidade que a vida nos ofereça, desque essa facilidade seja justa. A felicidade no amor nem é apenas justa, é uma espécie de dever. … E ainda existe esse mistério de “infelicidade me persegue”, como dizia o samba. A verdade mais insolúvel é essa… Você já reparou num fim de festa de que você participou de corpo, e alma, apaixonadamente. Festa acabou e você sente um vazio inconsistente, que não chega a doer, não chega a ser desilusão, não chega a ser nada de nitidamente qualificável: você apenas atinge uma noção vaga de mesquinhez. Tudo q que houve e que foi bom, como que não foi bastante! Não recuse a felicidade. O momento há-de vir em que você perceberá meio assustado que ela foi imensa e que não foi bastante.

“… O momento de criação é gostosíssimo, verdadeiramente aquela sublimidade de integração e de dadivosidade do ser, em que a gente fica na ejaculação sexual. É tão sublime mesmo, é tamanha a integração, que a gente não se pode ilhar num estado de conciência crítica e se analisar. O ser mais frágil do mundo, mais escravo, mais indefeso é o homem no momento da ejaculação: ele fica por completo inerme. Esse o momento da criação artística. O que sucede, é que esse momento é rapidíssimo (como a ejaculação), dura alguns segundos. E logo a gente principia o trabalho mais penoso e principalmente muito mais inquieto de artefazer, corrigir, criticar, julgar, intencionalizar, dirigir a obra-de-arte, polir, etc. etc., sacrificar coisas que gosta em proveito de uma significação funcional da obra-de-arte, que é mais importante que a gente, o diabo. Nisso é que vem muito sofrimento, muita fadiga, muita indecisão. … É preciso ser mais humilde, ainda aqui, mais operário, e não mistificar por demais essa história da arte ser filha da dor. É dolorido, é penoso, é fatigante, é sobretudo inquieto, inquietante e insatisfatório. Mas é gostoso também … é, sobretudo, de uma grande dignidade. A arte é “uma tortura”, como você diz? Apenas eu lhe pergunto uma coisa: você conhece qualquer profissionalidade humana que, realizada com dignidade, não seja uma tortura também? É a vaidade do artista individualistizado que o leva ao seu “atendite et videte si est dolor sicut dolor meus”. Isso é individualismo pretensioso. A tortura é de todos e se confunde com o que de-fato seja viver humanamente.

Será que estas digressões escritas ao léu do pensamento e sem ordenação, lhe bastam? …  Ainda havia o que comentar na sua carta, mas estou cansado. Eu aconselharia desde logo a você não se prender a equações muito nítidas e simplórias. Afinal das contas você, justamente por ser um intelectual, não pode se alimentar de provérbios; não se esqueça que os provérbios também são uma derivação da lei da preguiça, um viver morrendo. Por exemplo: no fim quase da sua carta, você me pergunta si a arte “paira acima e independente, dominando a vida e não sendo dominada por ela”. Isso é provérbio, é simplório por demais. Que a arte, sob certo ponto, paire acima da vida, inda é possível aceitar, porque se servindo de elementos estéticos (a beleza, o material transpositor, a crítica da vida, etc.) ela nunca é a vida mesma, e nos oferece uma síntese nova dessa mesma vida. A arte não há dúvida nenhuma que é uma espécie de mentira … Você não mente com a intenção de enganar, mas justo na intenção de atingir um beneficiamento maior. Mas por tudo isto mesmo, a arte jamais é independente da vida: há interdependência insolúvel e irrecorrível, que faz com que nem a vida domine a arte nem esta àquela. Não desligo assim proverbialmente duas coisas que são a mesma coisa. Até como aspiração elas são a mesma coisa: pois tudo não aspira a uma vida milhor?
Com um abraço do
Mário de Andrade”

May 18th :: Two years from I Started to Make Publlic My Soul [on] Here!…

In personal ... trainee, therefore i am, thinking: i purchase on May 18, 2009 at 6:07 am

Reading, Writting, Watching & Making My Soul [Mind] to/ on Public: You’re Welcome!

… Hoje – então, um ano depois de criar este life’s blog – sou paga para ler, escrever, observar e fazer de minh’alma [e mente] pública. Então, como diria o mestre Mario [de Andrade] já no final de sua vida:

…Seria estúpido eu não saber que sou ‘consagrado’.

[relação com Foucault?… A Ordem do Discurso]

Só os esforços, os esperneios, os papelões que faço pra não virar medalhão duma vez, você nem imagina.

Sucede pois, é natural, que tenho muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme.

Não hesito um só segundo em lhe garantir que, apesar de tudo isto,

não me pesará em nada lhe escrever muito,

auxiliar você no que eu possa.

Apenas, preliminarmente, eu desejo que você se examine bem,

num verdadeiro exame de consciência,

antes de se decidir a exigir esta correspondência.

… Se posso ser útil, meu tempo está ganho!

… Ora, F., para aguentar com um destino desses [ser um grande artista]

, antes de mais nada, é preciso ter uma ambição enorme,

uma paciência enraivecida,

um desejo de se ‘vingar’ da vida,

e uma ensolarada saúde mental.

E o que há de lindo,

de maravilhoso mesmo, neste ‘você’ que importa,

é que o que importa não é exatamente você

mas a obra-de-arte [criada por vc].

Isto é: uma forma coletiva de vida humana.

Coisa danada o destino, a psicologia do artista…

E em máxima parte este castigo de ser artista,

essa decepção eternamente insatisfeita

creio que vem desse desequilíbrio insanável,

dessa duplicidade irreconciliável:

a gente dar tudo o que tem,

todo o trabalho, todo o pensamento,

toda a dor em proveito… de outrem,

da obra-de-arte, um elemento intermediário.

Você não age diretamente,

‘sexualmente’ como um santo, um missionário, um soldado, um chefe.

Você cria um objeto que vai agir sozinho,

por si mesmo, sem mais a interferência de você.

Mas, sem que isto seja uma compensação propriamente,

você visou, criou um elemento de eternidade.

Este é o mistério bravo do destino do artista:

visar a obra-de-arte,

visar uma transcendência aleatória e problemática,

que por mais que renda (aplausos, riqueza)

tem outra finalidade que o rendimento,

por mais desvirtuada e incompreendida

visa a permanência e busca a eternidade.

Você se analise,

pense seriamente sobre você,

sobre se você sente mesmo em si

a fatalidade pesada de ser artista,

sobre se tem coragem e força para

aguentar o tranco duro que vai ser o seu.

É preciso pra você ter muita saúde mental

pra não se amolar com os outros,

com as incompreensões alheias,

com as humilhações.

Se você tem orgulho suficiente

pra mandar o mundo à puta-que-o-pariu,

em benefício desse mesmo mundo imbecil.

Bom: também não faça desse problema um caso de vida ou de morte.

O que é preciso é você ter coragem, na sua idade,

pra se afirmar diante de um espelho e com toda a seriedade

que a arte é uma coisa muito séria.

…be continue…

Mario de Andrade. São Paulo, 25 de janeiro de 1942.

…………………….