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tornar-se outro [Outrar-se vs. Antropofagia e Antropoemia]

In academic bursary, the 'old' ones :: master pieces on July 14, 2009 at 3:28 am

Outrar-se não é “tornar-se outro” em sentido frenia [mente/ personalidade #schizofrénie] … mas talvez dialogue perfeitamente com o vocábulo deleuziano, desterritorializar-se…

Outrar-se pode ser um “tornar-se outro” a medida em que, ao nos relacionarmos com os outros somos afetados [assim como afetamos] e nestas constantes trocas nos transformamos em um novo ser.

Não devoramos o outro [o desapropriando],

mas nos permitimos sermos penetrados

numa relação de penetração e reapropriação mútua.

Claude Lévi-Strauss … sugeriu em Tristes Trópicos que apenas duas estratégias foram utilizadas na história humana quando a necessidade de enfrentar a alteridade dos outros surgiu: uma era a antropoêmica [Antropoemia], a outra, a antropofágica [Antropofagia].

A primeira estratégia consiste em ‘vomitar’, cuspir os outros vistos como incuravelmente estranhos e alheios: impedir o contato físico, o diálogo, a interação social e todas as variedades de commercium, comensalidade e connubium.

A segunda estratégia consiste numa ‘soi-disant’ — alienação — das substâncias alheias: ‘ingerir’, ‘devorar’ corpos e espíritos estranhos de modo a fazê-los, pelo metabolismo, idênticos aos corpos que os ingerem, e portanto não distinguíveis deles. Essa estratégia também assumiu ampla gama de formas: do canibalismo à assimilação forçada — cruzadas culturais, guerras declaradas contra costumes locais, contra calendários, cultos, dialetos e outros ‘preconceitos’ e ‘superstições’.

Se a primeira estratégia [Antropoemia] visava ao exílio ou aniquilação dos ‘outros’, a segunda [Antropofagia] visava à suspensão ou aniquilação de sua alteridade.

@Bauman Modernidade Líquida. 2000

Chego aqui, portanto, na questão de “outrar-se” versus “antropofagia”; como se deu a ‘invenção’ de tal ‘conceito’:

Outrar-se refere-se à compreensão da existência de novas maneiras de se relacionar no mundo, com ‘o outro’, portanto à necessidade de criação de toda uma nova ética e novas morais tomando por base um novo século decorrente de uma nova cultura.

Outrar-se diz respeito a uma via dupla de contágio [contaminação?…] de algo ou outrem [objetos e/ ou sujeitos] com sentidos novos e diferentes* (primeiro por exposição, seguindo-se de contemplação e aprofundamento do ‘outro’: linguagens, pensamentos… trocas), transformando-se num novo ser humano [urbano?], com acréscimos de multiplicidades [formas de estar no mundo].

*no Outrar-se há sempre um deslumbramento com o novo — podendo este novo [o outro] ser ‘o diferente’ ou mesmo ‘o espelho’ –, e é a partir deste “deslumbramento” que estamos aptos a sermos penetrados pela alteridade e, assim, incentivados também a nos doarmos. Não há outrar-se que não seja uma “via de mão dupla”, um perder-se no encontro com ‘o outro’.

Outrar-se refere-se sempre a um exercício de despersonalização sobre um corpo sem orgãos a ser formado.

————————————————–

qdo lançamos mão – colocamos em público – de um “conceito” ou “idéia”, isto facilita nossa pesquisa em rede, a medida em que, os interessados – mtos? Qtos? Como? Quais? Por quê? – estarão googleando [lê-se gugando] o mesmo conceito: em alguns poucos dias [perceba-se que iniciei este teste há cerca de 3 semanas, quando da divulgação em distintas ‘redes sociais online’ sobre este conceito “outrar-se” …] deu-se então um diferencial de “visibilidade” encontrado – que encontramos – no Google [como ferramenta de busca online] em diferentes períodos ao longo deste curto espaço de tempo. O resultado tem sido – exponencialmente – mto maior e também de maior credibilidade [informação vs. Conhecimento] dos links apontados em cada busca de outrar-se [então como TAG].

o Outrar-se, portanto, faz parte de uma nova ética: a ética da confiança na rede. confia-se que o enunciador do discurso apreendido — blog ou outro sítio— publicou [digitalizou sua escrita e a tornou pública] na data referente ao post [publicação relacionada à pesquisa]. E é a partir desta primeira ética — em rede – que pode ser validada a enunciação d’outrem: citação/ pertencente a @ #link

Outrar-se exige, portanto, estima, respeito e confiança no ‘outro’ e no relacionar-se:

Os sentimentos de estima, respeito e confiança são exemplos práticos que apontam para os meios de integração de nossa simpatia com as simpatias de outros. Conquistar a estima, o respeito e a confiança de um estranho significa trabalhar na construção de um laço afetivo mais amplo que aquele de nossas parcialidades.

E esse é um dos papéis, senão o mais importante, das instituições: não exatamente o de governar ou regular as relações entre os homens, mas o de mobilizar suas tendências, integrando-as num todo maior, utilizando para tal o artifício dos valores e normas.

“… a forma como comportamentos e idéias se propagam, o modo como notícias afluem de um ponto a outro do planeta etc. A explosão das comunidades virtuais parece ter se tornado um verdadeiro desafio para nossa compreensão. … o fato de estarmos cada vez mais interconectados uns aos outros implica que tenhamos de nos confrontar, de algum modo, com nossas próprias preferências e sua relação com aquelas de outras pessoas. E não podemos esquecer que tal negociação não é nem evidente nem tampouco fácil. …

Na corrente dessa mudança de perspectiva do conceito de “comunidade” para “redes sociais”, vários autores das ciências sociais passaram a investigar, desde os anos de 1990, o conceito empírico de capital social (Burt, 2005; Lin, 2005; Narayan, 1999; Portes, 1998; Grootaert, 1997; Fukuyama, 1996; Putnam, 1993; Coleman, 1990). Essa noção poderia ser entendida como: a capacidade de interação dos indivíduos, seu potencial para interagir com os que estão a sua volta, com seus parentes, amigos, colegas de trabalho, mas também com os que estão distantes e que podem ser acessados remotamente. Capital social significaria aqui a capacidade de os indivíduos produzirem suas próprias redes, suas comunidades pessoais. … normas e valores que governam as interações entre as pessoas e as instituições com as quais elas estão envolvidas. A importância do papel das instituições é muito clara aqui, pois estas funcionam como mediadoras da interação social, uma vez que propagam valores de integração entre homens e mulheres.

Contudo, as instituições, como apontamos, exercem um papel regulador e mediador de processos mais profundos. O que nos interessa, no caso de uma análise do capital social, são as variáveis microssociológicas, como a sociabilidade, cooperação, reciprocidade, pró-atividade, confiança, o respeito, as simpatias. …

Mas por que seria isso considerado precisamente como “capital”? Ora, as relações sociais passam a ser percebidas como um “capital” justamente quando o processo de crescimento econômico passa a ser determinado não apenas pelo capital natural (recursos naturais), produzido (infraestrutura e bens de consumo) e pelo financeiro. Além desses, seria ainda preciso determinar o modo como os atores econômicos interagem e se organizam para gerar crescimento e desenvolvimento. A compreensão dessas interações passa a ser considerada como riqueza a ser explorada, capitalizada. …

O problema da sociedade, nesse sentido, não é um problema de limitação, mas de integração. Integrar as simpatias é fazer com que a simpatia ultrapasse sua contradição, sua parcialidade natural. A estima, o respeito e a confiança são a integral das simpatias. Nosso desafio é estender as simpatias para que seja possível constituir grupos maiores do que aqueles envolvidos pela simpatia parcial. Trata-se de inventar os meios e artifícios para que os homens consigam estender suas simpatias para além de seu clã, família, vizinhança. Ou seja, trata-se de estender as simpatias para além daquilo que se configura ainda como uma parcialidade: as “comunidades” em seu sentido mais tradicional. Para nos constituirmos em sociedade, precisamos empreender a integração das simpatias de forma a constituir um todo maior. …

Um dos aspectos essenciais para a consolidação de comunidades pessoais ou redes sociais é, sem dúvida, o sentimento de confiança mútua que precisa existir em maior ou menor escala entre as pessoas. A construção dessa confiança está diretamente relacionada com a capacidade que cada um teria de entrar em relação com os outros, de perceber o outro e incluí-lo em seu universo de referência. Esse tipo de inclusão ou integração diz respeito à atitude tão simples e por vezes tão esquecida que é justamente a de reconhecer, no outro, suas habilidades, competências, conhecimentos, hábitos… Quanto mais um indivíduo interage com outros, mais ele está apto a reconhecer comportamentos, intenções e valores que compõem seu meio. … reconhecer é também, e ao mesmo tempo, dar valor a alguém, aceitá-lo em seu meio, integrá-lo como colega ou parceiro.

Esta dinâmica do reconhecimento é com certeza uma das bases para a construção da confiança não apenas individual, mas coletiva. Redes sociais só podem ser construídas com base na confiança mútua disseminada entre os indivíduos. Isso pode se verificar em maior ou menor grau, mas de qualquer forma a confiança deve estar presente da forma a mais ampla possível. …

É cada indivíduo que está apto a construir sua própria rede de relações, sem que essa rede possa ser definida precisamente como “comunidade”. Mais profundamente, é no bojo da revolução tecnológica atual que se percebe a força de um conceito como aquele de Hume, o de simpatia parcial. A possibilidade de integração de simpatias dentro da cibercultura é da ordem do jamais visto em nossa história. Os homens conseguem encontrar zonas de proximidade lá onde isso pareceria impossível: pessoas compartilham idéias, conhecimentos e informações sobre seus problemas, dificuldades e carências. …”

[Costa, Rogério da. Por Um Novo Conceito de Comunidade in Interface – Comunic, Saúde, Educ, v.9, n.17, p.235-48, mar/ago 2005 | acesso em maio de 2009]

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