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“outrar”, no verbo de Rimbaud

In academic bursary on July 3, 2009 at 5:58 pm

A reflexão de Derrida, por sua vez, dissipa, a meu ver, a alteridade à força de generalizá-la. Se só há diferenças sem referência, não há mais alteridade, mas uma perpétua alteração, produzindo uma pluralidade indefinida. Alteridade provém do termo latino alter, que, como o grego héteron, define-se em função de um pólo de referência, seja ele o Ego, o Mesmo ou o Um. O Outro não passa sem o Um. Não há alteridade sem ipseidade.

É para esta “pertença mútua da Identidade e da Diferença”*2, esse diferendo íntimo entre o Mesmo e o Outro, que gostaria de apontar com o título de meu trabalho. Sua formulação se vale de uma lógica paradoxal, que repousaria não mais no princípio de identidade, mas em uma “relação de alteridade”*3, na qual o Mesmo e o Outro deixariam de excluir-se, para incluir-se mutuamente.

… Mas a modernidade não pode mais localizar essa transcendência em um outro mundo, fazer dela o apanágio de um Ser supremo: ela tende a reavê-la no próprio cerne da imanência. A seus olhos, é nosso mundo e o próprio Eu que se revelam outros. O paradoxo dessa alteridade imanente ao real e ao sujeito está, por exemplo, no centro da reflexão de Octavio Paz…

Baudelaire chamava de profundidade esta outra dimensão inscrita no próprio seio de nosso mundo, e que pode “revelar-se inteira no espetáculo, por natural e trivial que seja, que temos diante dos olhos”*7. Para quem sabe abrir-se para essa profundidade da vida, “o primeiro objeto que aparece se torna símbolo falante”, isto é, ao manifestar-se, é outra coisa que ele manifesta. Esses propósitos baudelairianos, que inauguram o Simbolismo, fundam também, a meu ver, toda uma tendência da modernidade poética que não busca a alteridade em experiências-limite, ou em algum ponto sublime, mas em experiências quotidianas. …

Esse entrelaçamento entre o próximo e o longínquo, entre o Mesmo e o Outro, dá-se também na estrutura de horizonte da coisa mais banal. Para a fenomenologia, uma coisa só pode ser identificada por meio de um duplo horizonte, interno e externo, que a torna suscetível de revelar-se sempre outra, e de entrar em relação com uma infinidade de outras coisas. …


A diferença da palavra poética já deu lugar a diversos mal-entendidos, que se polarizaram em certo momento em torno da noção de desvio, de maneira muito favorável em poéticas de inspiração estilística ou lingüística (como as de Cohen ou de Levine). Essa noção tem por principal inconveniente o estabelecimento de uma noção de exterioridade entre a língua, considerada como uma norma fixa, e a palavra poética, que desde então se define apenas negativamente, como infração ou afastamento em relação a essa norma. Uma concepção como essa me parece típica de um procedimento que separa o Mesmo e o Outro: de um lado, a língua como sistema sempre idêntico a si mesmo; do outro, a poesia como pura negatividade.

Entre o poeta e seu dizer se constitui igualmente uma relação complexa de referência e diferença, um diferendo íntimo perfeitamente resumido pela famosa fórmula de Rimbaud: “EU é um outro”. Essa fórmula recusa, a meu ver, tanto o esquema tradicional da expressão, que reduz o texto a uma simples cópia da subjetividade, quanto uma teoria moderna que, rejeitando com justiça essa identificação, evacuasse o sujeito da escrita ou o limitasse a um simples efeito de linguagem. Mais do que reduzir um ao outro os termos da relação, parece-me mais interessante interrogar a interação entre eles, tentar compreender de que maneira, nos jogos de linguagem, o eu se recoloca em jogo. Ora, é precisamente sobre essa interação que a proposição de Rimbaud nos convida a meditar.

“EU é um outro”: a passagem da primeira pessoa para a terceira assinala o corte entre o sujeito do enunciado e o da enunciação. O eu se descobre outro assim que começa a cantar: “EU é um outro. Azar da madeira que se descobre violino”*18. Aqui, Rimbaud se opõe inegavelmente à teoria tradicional da expressão, segundo a qual o eu, em sua identidade e integridade, seria senhor e garante – auctor – de sua palavra: apenas “velhos imbecis” “egoístas” “se proclamam autores”*19. Ele rejeita a concepção cartesiana que dá ao sujeito a faculdade de coincidir consigo mesmo no ato de pensar: “Está errado dizer: Eu penso. Deveríamos dizer: Pensam-me”*20.

fonte: “O Outro no Mesmo”,  Michel Collot >> http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-106X2006000100003&script=sci_arttext

Eu é um outro.

Tanto pior para a madeira que se descobre violino e zomba dos inconscientes que discreteiam sobre aquilo que pura e simplesmente ignoram.

Não sois Mestre para mim.

Dou-vos isto: será uma sátira como vós dir-eis?

É poesia? Fantasia, é-o sempre.

– Mas, suplico-vos, não a sublinheis com o lápis nem – demasiado – com o pensamento:

Coração Supliciado

……………………………………

[links enviados pelo Dani]

🙂

Thanks!

🙂

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