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“outrar”, no verbo de Fernando Pessoa

In academic bursary, life2009 on June 30, 2009 at 1:53 am

Só consigo me reconhecer fora de mim e em relação a.
É minha forma de “outrar”, no verbo de Fernando Pessoa.


Por isso, adoro esta passagem de Brecht:
“eu pensava dentro de outras cabeças;
e na sua, outros, além dele, pensavam.
Este é o verdadeiro conhecimento.”

http://jaldes-campodeensaio.blogspot.com/2008/03/dia-triunfal.html

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“…Gosto de Palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -,
Transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritimos verbais, ou os escuta de outros.
Estremeço se dizem bem.


Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente.
E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas.
São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indeferem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas.
Assim as idéias, as imagens, trêmulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de idéia bruxuleia, malhado e confuso.

… Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto não quem escreve mal português,
não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada,
mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente.
A palavra é completa vista e ouvida.

E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”
[“Livro do Desassossego”, por Bernardo Soares. Vol. I, het. de Fernando Pessoa]
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“… É extraordinariamente bem feita a sua observação sobre a ausencia em mim do que possa legitimamente chamar-se uma evolução qualquer.

Ha poemas meus, escriptos aos vinte annos, que são eguaes em valia – tanto quanto posso appreciar – aos que escrevo hoje.

Não escrevo melhor do que então, salvo quanto ao conhecimento da lingua portugueza – caso cultural e não poetico.

Escrevo differentemente. Talvez a solução do caso esteja no seguinte.

O que sou essencialmente – por traz das mascaras involuntarias do poeta, do raciocinador e do que mais haja – é dramaturgo.
O phenomeno da minha despersonalização instinctiva, a que alludi em minha carta anterior, para explicação da existencia dos heteronymos, conduz naturalmente a essa definição.


Sendo assim, não evoluo: VIAJO.

(Por um lapso das teclas das maiusculas, sahiu-me, sem que eu quizesse, essa palavra em lettra grande. Está certo, e assim deixo ficar.)
Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que póde haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de crear personalidades novas, novos typos de fingir que comprehendo o mundo, ou, antes, de fingir que se póde comprehendel-lo.
Porisso dei essa marcha em mim como comparavel, não a uma evolução, mas a uma viagem:
não subi de um andar para outro; segui, em planicie, de um para outro logar.
Perdi, é certo, algumas simplezas e ingenuidades, que havia nos meus poemas de adolescencia;
isso, porém, não é evolução, mas envelhecimento. …”

http://us.geocities.com/marco_lx_pt/pescartaviajo.htm

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A multiplicidade é destacada por Ítalo Calvino como sendo um dos valores que ele gostaria que fosse transferido para a Literatura do novo milênio. Para Calvino quanto mais à obra tende para a multiplicidade mais se distancia da sinceridade interior de quem escreve.

Fernando Pessoa, poeta múltiplo, já procurava despersonalizar-se para fazer surgirem vários eus nesta perspectiva. A fragmentação instala-se em sua poesia demonstrando que o conceito de individualidade inexiste exprimindo um caráter múltiplo do ser. Não sei quantas almas tenho

Ítalo Calvino pergunta, portanto a cerca desta questão:

Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras. 2

Assim Calvino também contribui para a concepção sobre a inexistência de uma personalidade unificada como garantia de uma verdade que não seja parcial.

O poema se intitula e se inicia com a frase: Não sei quantas almas tenho. Essa colocação evidencia ao mesmo tempo duvidas existenciais e a certeza de um eu múltiplo. Tal aspecto é almejado por Ítalo Calvino ao idealizar: Quem dera fosse possível uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual. 3 Essa expectativa de Calvino é demonstrada nesta poesia de Fernando Pessoa, a qual revela a consciência da multiplicidade, da mutabilidade, e da limitação de apenas ser um ser:

Nota-se que a mutabilidade e a inconstância revelam o desconhecimento de um eu devido ao seu caráter de multiplicidade: Torno-me eles e não eu.. Para tanto, nota-se que o conceito de individualidade inexiste já que.

Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.

http://www.webartigos.com/articles/1040/1/fernando-pessoa-as-multiplas-almas-que-dividem-um-ser/pagina1.html

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