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últimas linhas de maio [e de Mário]

In personal ... trainee, the 'old' ones :: master pieces on May 30, 2009 at 10:55 pm

é isto. postar aki mais uns trechos das cartas [para entregar o livro a quem o comprou, e livrarme enfim deste enfeitiçamento]. o fim desta leitura se foi há mais de uma semana já, mas há uma tamanha frescura em minha memória de frases inteiras [e conceitos]…….. enfim. e não podia fechar este mês sem estas linhas [e talvez outras mais q não terei mesmo tempo] ……. enfim.

17 de maio de 2009:
[quase todas as brincadeiras de choque das trocas ‘gramaticais’ das palavras como se por si, consciente por conciente, foram ‘corrigidas’ – talvez para horror do mestre –, mas explico-me de antemão, portanto: embora choquem em letras impressas, em uma visualidade virtual online elas não fazem mais qualquer sentido!, não são brincadeiras-de-choque como um Guimarães Rosa faria anos depois [?] sempre buscando imprimir sotaques e seus maneirismos próprios de linguagem. Quando há esta riqueza em Mário, como para por pra [ou de pra para para], as escritas são importantemente aqui respeitadas. Tornam-se necessárias e honradas porque induzem a um real coloquialismo das relações sociais em questão … Ou toda esta discussão é nula – e ingênua: sem valor – caso a ordem-regra gramatical à época fosse diferente dos dias atuais].

excertos da carta de 16-II-1942

“… Sendo a arte um produto direto da insatisfação humana, o artista, para se preservar em sua integridade, tem que renegar toda e qualquer facilidade que lhe aparecer na vida prática? … Só há uma resposta possível e imediata: Aceite o que a vida lhe oferece e experimente. … (repare que insisto em ‘facilidade’, evitando a palavra ‘felicidade’), se amor, se riqueza, deve ser uma destas duas.

A arte, para Mário de Andrade, não é filha da dor [como mtos imaginam e proferem], mas eh um penetrar-se constante de um processo de insatisfação. Mas em um desenvolvimento e compreensão crítica o artista chega a momentos fugazes de satisfação quando se dá conta da excelência de sua própria obra-de-arte que fora criada com tanto penar, “entusiasticamente, sem fadiga, seu dever, isto é, deu tudo o que tinha. … Não use então modéstia falsa … Como artista vc foi ‘moral dando tudo  que tinha. A sua obra se identifica com vc, pois que ela é tudo o que vc é. Você há-de necessariamente sentir a consciência tranquila e com isso uma espécie de satisfação, derivada deste equilíbrio relacional entre você e a sua obra. Mas desde o momento em que você tornar pública a sua obra e ela for viver independente de você, as insatisfações virão e os desgostos. As incompreensões serão fatais. [então ele volta ao relato – a falar sobre – Macunaíma, sobre “a falta de organização moral dele, (do brasileiro, que ele satiriza)” – grifo meu, e como lhe era um sofrer por seu herói.

“não existe um só artista que não artefaça com a intenção de ser amado”

e ele continua, ao falar dos críticos de seu livro: havia dois tipos que elogiavam, um por ufanismo e outros que “só retiraram do livro um reforço consciente de seu amoralismo… nacional” (grifo meu)

“Mas agora veja bem: não imagine não que eu vou bancar o incompreendido e sustentar o valor crítico do meu livro! Eu tenho bastante saúde mental pra reconhecer que a vida é uma luta, …”

Você confundiu, como fazem todos, felicidade com facilidade. … você não podia ter empregado a palavra felicidade pro seu caso atual. Será tudo o que você quiser, um deslumbramento, um delírio sublime que você está prestes a conquistar, se não já conquistou. Mas felicidade não é não. Se vc chegar a uma conceituação verdadeiramente filosófica do que seja Felicidade, vc perceberá que o sentido popular em que vc empregou a palavra é defeituoso e até imoral. Imoral porque desvia o indivíduo da sua integridade, da sua destinação coletiva e mesmo individual. Coisa muito mais alta que uma facilidade momentânea ou mesmo permanente.”

Mário de Andrade segue então a falar de felicidadeversusfacilidade [convívio] e como o ser humano nunca está satisfeito e sempre há-de querer mais “facilidade (felicidade)” e não há mal nisto (“é a marca divina do homem”, ele cita – a exemplo deste ‘divino no homem'[?] – Hitler, Stalin e Getúlio entre artistas, inventores e ladrões.

“O mal é que, embora buscando sempre aumentar insatisfeitamente a ‘felicidade’ conquistada … o mal é que vc, embora pretenda se aumentar, vc principia agindo sorrateiramente como se estivesse satisfeito: é o conformismo. Esta é a cilada que o homem encontra quotidianamente em seu caminho, o conformismo. Ela principia já por ser fisiológica: é a lei da estabilização, a lei que eu chamo de ‘preguiça’, nós vivemos morrendo. Quando o princípio moral verdadeiro [não gosto deste jogo de palavras moral-verdadeiro e artista-verdadeiro…… o que é /ou o que há de\ tão importante neste verdadeiro – falso – de/ em Mário?], é justo o contrário: nós devemos viver sempre nascendo: tudo deve ser objeto de aprimoramento pessoal e a busca da perfeição. Não hesito em afirmar: toda facilidade, toda felicidade é desmoralizante.

“… É vc não perder jamais de consciência que a sua experiência de felicidade deve ser também um objeto de aprimoramento pessoal. A felicidade, o prazer, a facilidade também é uma prova por que a gente passa … No seu caso particular de artista: o operário, cada vez que principia trabalhando, não reverifica os seus instrumentos de trabalho? não afia a foice, não azeita a máquina? Você também precisa estar sempre alerta, pra que seu trabalho seja legítimo. Você precisa reverificar constantemente os seus instrumentos de trabalho. É difícil, a facilidade tende a esquecer isso, a sequestrar a ideia da gente se repensar e se reverificar em seus trabalhos. Mas há um jeito muito humano da gente consertar essa tendência sorrateira: a fixação de uma data… comemorativa da sua grandeza de homem e de artista. Fixe uma data anual para o seu retiro espiritual, eu faço isso no fim do ano, que é mais fácil e inesquecível. O que fiz este ano que passou? no que isso me acrescenta em minha obra ou a prejudica? o que preciso fazer este ano próximo? no que devo me completar? Afinal das contas estou lhe dizendo coisas banais, que, aos banais, parece estar cheirando a confessionário. Não será tão banal assim… a vida tem de ser, muito mais que um viver-se, um continuado repensar-se. Mas a gente tem vergonha de se repensar. Fazer exame de conciência, isso é “desvio” (ah, a psicanálise!…) próprio de meninotes e das frágeis mulheres. “Eu sou um espírito forte!”, e são os mais inexistentes dos espíritos…

“Não é justo a gente se recusar uma facilidade que a vida nos ofereça, desque essa facilidade seja justa. A felicidade no amor nem é apenas justa, é uma espécie de dever. … E ainda existe esse mistério de “infelicidade me persegue”, como dizia o samba. A verdade mais insolúvel é essa… Você já reparou num fim de festa de que você participou de corpo, e alma, apaixonadamente. Festa acabou e você sente um vazio inconsistente, que não chega a doer, não chega a ser desilusão, não chega a ser nada de nitidamente qualificável: você apenas atinge uma noção vaga de mesquinhez. Tudo q que houve e que foi bom, como que não foi bastante! Não recuse a felicidade. O momento há-de vir em que você perceberá meio assustado que ela foi imensa e que não foi bastante.

“… O momento de criação é gostosíssimo, verdadeiramente aquela sublimidade de integração e de dadivosidade do ser, em que a gente fica na ejaculação sexual. É tão sublime mesmo, é tamanha a integração, que a gente não se pode ilhar num estado de conciência crítica e se analisar. O ser mais frágil do mundo, mais escravo, mais indefeso é o homem no momento da ejaculação: ele fica por completo inerme. Esse o momento da criação artística. O que sucede, é que esse momento é rapidíssimo (como a ejaculação), dura alguns segundos. E logo a gente principia o trabalho mais penoso e principalmente muito mais inquieto de artefazer, corrigir, criticar, julgar, intencionalizar, dirigir a obra-de-arte, polir, etc. etc., sacrificar coisas que gosta em proveito de uma significação funcional da obra-de-arte, que é mais importante que a gente, o diabo. Nisso é que vem muito sofrimento, muita fadiga, muita indecisão. … É preciso ser mais humilde, ainda aqui, mais operário, e não mistificar por demais essa história da arte ser filha da dor. É dolorido, é penoso, é fatigante, é sobretudo inquieto, inquietante e insatisfatório. Mas é gostoso também … é, sobretudo, de uma grande dignidade. A arte é “uma tortura”, como você diz? Apenas eu lhe pergunto uma coisa: você conhece qualquer profissionalidade humana que, realizada com dignidade, não seja uma tortura também? É a vaidade do artista individualistizado que o leva ao seu “atendite et videte si est dolor sicut dolor meus”. Isso é individualismo pretensioso. A tortura é de todos e se confunde com o que de-fato seja viver humanamente.

Será que estas digressões escritas ao léu do pensamento e sem ordenação, lhe bastam? …  Ainda havia o que comentar na sua carta, mas estou cansado. Eu aconselharia desde logo a você não se prender a equações muito nítidas e simplórias. Afinal das contas você, justamente por ser um intelectual, não pode se alimentar de provérbios; não se esqueça que os provérbios também são uma derivação da lei da preguiça, um viver morrendo. Por exemplo: no fim quase da sua carta, você me pergunta si a arte “paira acima e independente, dominando a vida e não sendo dominada por ela”. Isso é provérbio, é simplório por demais. Que a arte, sob certo ponto, paire acima da vida, inda é possível aceitar, porque se servindo de elementos estéticos (a beleza, o material transpositor, a crítica da vida, etc.) ela nunca é a vida mesma, e nos oferece uma síntese nova dessa mesma vida. A arte não há dúvida nenhuma que é uma espécie de mentira … Você não mente com a intenção de enganar, mas justo na intenção de atingir um beneficiamento maior. Mas por tudo isto mesmo, a arte jamais é independente da vida: há interdependência insolúvel e irrecorrível, que faz com que nem a vida domine a arte nem esta àquela. Não desligo assim proverbialmente duas coisas que são a mesma coisa. Até como aspiração elas são a mesma coisa: pois tudo não aspira a uma vida milhor?
Com um abraço do
Mário de Andrade”

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