O conceito de “alienação” corresponde, em Hegel, em sua forma mais geral, ao processo pelo qual o Espírito se projeta para fora de si para, em seguida, por etapas sucessivas, retomar, no absoluto, a identidade consigo mesmo. A alienação corresponde ao segundo termo da tríade dialética em que o Espírito se projeta para fora de si mesmo como natureza, toda sua evolução fenomenológica consistindo no processo de negação da negação, da reassunção final da identidade do “em si” é do “por si”, que se realiza através das várias etapas da história humana.
Na “Fenomenologia”, a alienação surge para a consciência como sua dimensão essencial quando, para atingir a consciência de si, exige o reconhecimento de si pelo outro. …
… pelo trabalho adquire a cultura que só pertence ao senhor de forma mediatizada, mas pertence ao escravo de forma imediata e definitiva. Pela potência da negatividade e a cultura que lhe traz o trabalho, o escravo percebe sua possibilidade de ser livre, de atingir a liberdade que reside em ordenar sua existência a partir da idéia que faça de si mesmo.
Sem condições de efetivar esta liberdade que sabe possuidora, a consciência do escravo se transforma em consciência infeliz, que busca a liberdade dentro de si mesma, sem efetivá-la concretamente. Torna-se estóica, cética, e finalmente religiosa, projetando para fora de si a liberdade que sabe possuir mas não assume.
É uma dialética que busca atingir, conforme a perspectiva de Hyppolite, uma dimensão ontológica, como fenomenologia de um problema universal “que é o da consciência de si humana que, incapaz de se pensar como um Cogito separado, não se encontra senão no mundo que edifica, nos outros eu que ela reconhece ou em que, por vezes, se desconhece”
Mas a ontologia hegeliana não admite esta limitação à abstração genérica, exigindo uma dimensão concreta. No Mundo ético da Cidade Grega, o indivíduo é confundido com a coletividade, e assim é livre e universal de forma imediata, sem a consciência de sua individualidade como “em si”. À dissolução da Cidade Grega corresponde a cisão entre o eu e sua essência imediata, e é ai então que se opera a alienação que coloca, de um lado, a sociedade e a cultura como exterior ao eu, e de outro o eu como um “em si” que inicia a dialética histórica da desalienação.
Separado de si mesmo, e separado do outro, separado do mundo humano da cultura, o Espirito…
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Lefort vai buscar a raiz do conceito de alienação não na análise clássica do feitichismo da mercadoria, como quer Lefebvre, mas na análise da própria sociedade industrial, que ao mesmo tempo universaliza e particulariza o homem, ao mesmo tempo estabelece a unidade de todos os atos produtivos – uma sociedade universal – e é ao mesmo tempo o movimento pelo qual se constituem as esferas estanques das atividades do trabalho. A alienação estaria não em uma “irrealidade” do mundo das mercadorias, oposta à “realidade” do trabalho natural – pois o real não pode ser nada além da que as relações sociais concretas entre os homens -; mas na contradição entre a particularização e a universalidade, que se expressaria em diversas formas, no dinheiro e na mercadoria como forma geral da alienação na sociedade capitalista.
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Neste sentido são importantes as indicações de Lefebvre [Henry], procurando determinar, na quotidianeidade da vida humana, a presença de alienações. “A alienação se descobre na vida de cada dia, na do proletário como na do pequeno burguês ou dos capitalistas“. Esta noção “permite descobrir como o homem (cada homem) cede às ilusões e crê se encontrar e se possuir através delas, e quais angústias ele inflige a si mesmo; ou como luta para trazer à luz o seu ‘núcleo’ de realidade humana“(Critique de la Vie Quotidienne, L’Arche Editeur, Paris, 1958). A determinação da alienação na quotidianeidade se realiza através do conhecimento crítico da vida quotidiana, em que se estabelece o contraste entre o que os homens são e o que crêem ser, entre o que vivem e o que crêem viver . “Na vida social como na vida individual, o viver e o vivido não coincidem “. “Entre as pessoas e elas mesmas se intercalam imagens, ‘modelos’ “. “O conhecimento da vida tenta eliminar o que separa o viver do vivido, tornando então consciente a vida. O que implica na superação dos dois termos”
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Pela visão do processo político brasileiro tal como a esboçamos, podemos indicar a conclusão de que a manifestação aguda de alienação política no Brasil significa o fim daquelas formas que poderíamos chamar, em comparação com as formas contemporâneas, de alienação direta, social, recoberta externamente por um Estado político atrofiado. A fase atual parece corresponder ao apogeu do Estado político brasileiro, que passa cada vez mais a penetrar em todas as estruturas locais de dominação. Para o futuro, teríamos ou a perspectiva de uma acentuação da alienação política, através de governos capazes de levar à frente a galvanização demagógica das massas, ou o caos político que pode redundar em solução de força. As perspectivas de desalienação, em vista do processo de desenvolvimento econômico, se situam no surgimento de novas instituições de massa, partidárias, sindicais e camponesas, fundamentalmente, que possam efetivar a ligação entre as massas e o poder. As transformações políticas que o desenvolvimento destas instituições acarretariam já escapam às possibilidades de previsão clara.
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Chegamos, neste ponto como nos demais, à mesma postura metodológica. A consideração do o normal e do patológico implica, ao lado suas exigências de máxima racionalidade, a inserção do fenômeno dentro de uma hipótese de trabalho que, por ser empiricamente indemonstrável, pelas implicações que acarreta a toda a atividade intelectual do estudioso, e pela identificação com um poder de vontade concretamente existente, equivale, no plano vivido, a uma opção existencial do sociólogo. E nada há que estranhar nisto, se a própria sociedade é a construção do homem por ele mesmo, enquanto ser que aspira à liberdade.